terça-feira, 25 de abril de 2017

Um belo sábado...

Boas!

Faz tempo que não escrevo aqui, sei disso. É que o que rende leitores são os perrengues, e nos últimos tempos, apesar de velejar praticamente todo final de semana, nada fora do usual tem acontecido. bem, isso até pelo menos o último sábado, 22 de abril, aniversário de Itanhaém e do descobrimento do Brasil, entre outras coisas mais interessantes.

Na sexta comecei uma turma de básico, tendo na tripulação o Wagner, o Fernando, o Antonio e o Marcos. Não ventou nada o dia todo e havia previsão de entrada de frente fria. Fiz um dia de teoria intensiva e o final do dia motoramos a bordo do Jazz 4 (Velamar 31) pela baia de Santos, espelhada como há muito eu não via,a penas para matar a curiosidade dos novatos. Aquela calmaria era o prenúncio de momentos complicados.

No dia seguinte, sábado, saímos cedo para cumprir o programa do básico, atrasado em sua parte prática em um dia. Por sorte havia vento. Fomos dessa vez no Easygoing (Delta 32), com uma outra tripulante a bordo, a Vivian, aluna da Escola de Vela de Monotipo do Clube Internacional de Regatas, onde guardo os barcos da Cusco Baldoso.


Demos vários bordos pela baía, sempre ganhando altura. No horizonte, ao sudoeste,  o céu plúmbeo avisava que os ventos de dez nós iriam sofrer ligeiro aumento. Poucos minutos depois a Vivian nos alertou que os veleiros mais ao sul, ou seja, mais para o mar, estavam adernando demais. Era a dica. Qual a hora de rizar as velas, pessoal? Bem, quando você pensa em rizar, já está atrasado meia hora, pelo menos.  Vamos ao rizo da mestra, na primeira forra. Gosto muito de rizar com os alunos em situações em que o rizo é de fato necessário.





Não demorou muito e o vento entrou. Vinte, vinte e cinco, trinta... Por cautela liguei o motor para voltar para o clube na máquina (espero que o Spinelli nunca leia isso - mas eu tinha motivos concretos para adotar essa medida). Girei a chave e... nada. Praga do Spinelli, que ele me jogou mesmo sem saber. Seria sem motor, que tinha problemas claramente de ordem elétrica. Seria no pano mesmo, o prato da casa.

O vento subiu. Uivava nos estais. O mar cresceu. Olhei para a mestra e percebi que os ilhoses estavam esgarçando com o esforço (amarramos os cabinhos sempre na vela, nunca na retranca). Ela iria rasgar. Tínhamos que abaixar a mestra e ir só de genoa. O problema é que esse barco, com vento e mar, fica ruim de leme só de genoa, orçando pouco (no mar liso, sem ondas, isso já não acontece). Mas não tinha jeito. A Vivian me ajudou a baixar a mestra, ficando junto ao mastro; o Francisco no leme e os demais membros da tripulação que ainda estavam ativos me ajudaram a amarrar a mestra na retranca. No convés o primeiro litro de vômito se fez presente - e não seria o último.

O vento, ao contrário da minha expectativa,  cresceu absurdamente. Chegou aos quarenta nós em algumas rajadas.

Ao longe vi um veleiro passando dificuldades na Ilha Urubuqueçaba. Velas em cima, ele claramente estava indo para as pedras. Eu poderia jurar que era o Grandpa e isso me fez ter calafrios.



Mais ao sul, no mar, um tripulante de um Fast 23 caiu na água durante uma manobra. O outro tripulante disse, depois, que não conseguia fazer nada: apenas levar o barco em linha reta, cada vez mais para longe do MOB (homem ao mar). Por puro acaso uma lancha passou pelo local e viu uma pessoa de boné vermelho, sem colete, nadando.

O tripulante caído, na verdade, era o comandante do pequeno Fast 23 e precisava voltar para o barco. A lancha, então, alcançou o veleiro e pareou. O tripulante do veleiro lançou um cabo longo e o náufrago se jogou na água, conseguindo pegar o cabo e voltar, sei lá a que custo, para o barco. Se eu cansei apenas escrevendo, imagino lá, no sufoco.

Nós também quase tivemos um MOB, pois a Vivian escorregou na proa e quase se fez ao mar. Um belo susto, mas nada sério. Já na cabine o Antonio, que veio lá do Acre velejar conosco, tentava descobrir o que havia com o motor. Uma onda mais malvada, porém, nos acertou e ele foi jogado para o outro lado do barco com alguma violência.

Eu assumi o leme e ficamos cruzando a baía, no eixo leste - oeste, indo para lá e para cá, até ter condições seguras de entrar no canal doporto. Alguém quis servir comida para todos (!) e me ofereceu um casaco. Eu disse que não precisava.  Nessa hora veio uma onda e me lavou. Não apenas com água do mar, mas também com o vômito que estava no convés - e que não adiantava limpar, pois era sempre reposto. "-Tudo bem, quero sim o casaco!".

Liguei para o Rafael, nosso aluno e membro de nosso clubinho de uso compartilhado de veleiros e me tranquilizei: o Jazz 4  (Velamar 31) e o Grandpa (Fast 23) estavam na marina há tempos e não pegaram o grosso da tormenta. Combinei que quando a coisa melhorasse ele e o pai da Vivian, Valter, também velejador, nos rebocariam com o Jazz 4 da entrada do canal da marina até a vaga. Isso deveria acontecer em no máximo uma hora, quando o temporal amainasse.

Foi exatamente isso o que aconteceu. Mas não tão fácil assim.

Quarenta minutos depois o vento, de fato, diminui bem. Velejamos com vento pela alheta até a Fortaleza da Barra e ao avistarmos o Jazz a caminho abaixamos a genoa (que também estava rasgando!), ficando à deriva. O Jazz, porém, se aproximou demais e.... a churrasqueira que estava no suporte foi parar no colo da Vivian, espalhando carvão pelo convés do Easygoing. Ainda assim consegui passar o cabo de reboque para o Rafael. Mas o tal cabo se soltou do cunho de popa do Jazz. Uma segunda tentativa foi feita, dessa vez com mais distância e, enfim, deu tudo certo. Pouco tempo depois estávamos na vaga.


No caminho para a vaga vimos o Inti, aquele Delta 32 que estava na Ilha Urubuqueçaba, pedindo apoio para entrar na marina porque estava sem motor também. Entrava na barra apenas de genoa. Chamei no rádio VHF para dizer que depois de deixar o Easygoing  voltaríamos para buscá-lo, mas a marina dele, a Boreal, já havia mandado uma lancha e não seria preciso.

Juntamos as tralhas, arrumamos do jeito que deu o barco e no dia seguinte terminamos o curso, no Jazz 4, sob ventos de dez nós e voltando para entrada da marina na vela e com motor ok. O problema do motor do Easygoing foi apenas um fio solto no motor de arranque... e nada mais. Depois que tudo se acalma fica muito mais fácil trabalhar.

A tripulação se comportou muito bem e deu tudo certo. Estamos prontos para a próxima, mas sem muita pressa disso acontecer.

E vamos no  mesmo!

quinta-feira, 16 de março de 2017

Uma aula diferente...

Boas!

Ontem coloquei em duas sacolas um colete automático, cinto de segurança, várias bussolas, alidade, cartas náuticas, compasso de navegação, réguas de paralelas, EPIRB, Spot, radio VHF e fui... para a escola!

Pois é. A pedido da Priscila voltei ao colégio onde estudei, em Santos, para falar para os alunos dela sobre navegação à vela. Falei para três turmas, entre oito e nove anos de idade, ao longo de toda a tarde.

- Por que você está todo molhado? - me perguntaram logo de cara.
- Porque peguei uma onda antes de vir para cá! - respondi.

A aluninha, porém, não se fez de rogada:

- Você está é suado!

Lição número um: seja lúdico com as crianças, mas não as trate feito bobas.Não são.

- E se o casco furar?
- E à noite?
- O que vocês comem? 
- Ondem dormem?
- Para onde vai o "número dois"?
- De que são feitas as velas?
- Como navegar contra o vento?
- O Kraken existe sim, eu vi! É a Lula Colossal!
- E o redemoinho no meio do mar, como sair dele?!

Glup!

Não foi tão fácil quanto eu esperava. Mas foi muito divertido, principalmente quando toda a sala de aula respondeu em coro para o operador de rádio VHF da estação DELTA 21 (Iate Clube de Santos): "QAP 68!!!!" E também quando, sem querer, eu inflei o PDF automático! E foi sem querer mesmo!



Obrigado crianças. Lembrem-se sempre: vocês são do tamanho de seus sonhos. Por isso, sonhem alto! 

E vamos no pano mesmo!





segunda-feira, 13 de março de 2017

Velejada até a Laje de Santos

Boas!

No último dia 11/03, sábado, estava agendada a aula de conclusão do curso básico de vela oceânica dos alunos Giuliano, Erika e Douglas, na base Santos. Essa turma, a melhor de março de 2017 (em Santos!), foi um tanto atípica. Em geral a primeira aula nós fazemos  mais próximos de terra, a segunda um pouco mais para o mar e a terceira lá fora, "nos navios".

Por questões de vento, ou falta dele, já fizemos com esse pessoal a primeira aula lá nos navios. A terceira aula, assim, precisaria ser um pouco mais desafiadora. 

Aproveitando o fato de todos já terem tido contato com a vela antes decidi aproveitar a disponibilidade - e vontade - do Eduardo Colombo, do veleiro Erva Doce (Bavaria 33) e fomos até alaje de Santos: um afloramento magnífico distante cerca de vinte milhas de Santos, em mar aberto, e um dos melhores pontos de mergulho do mundo.

Zarpamos às 10h00. Vento zero. Mestra em cima e motor.Ao chegarmos na Ponta Grossa colocamos a proa no rumo 180º magnético. Essa navegação para mar aberto é um pouco mais complicada, pois não há referência visual alguma e é uma boa oportunidade para que os alunos timoneiem com uso da agulha magnética. Os cinco primeiros minutos tendem a ser de caos, mas logo a proa vai ficando menos "móvel".





Por volta de 11h00 o vento entrou, de SW, mas fraco. Ainda assim conseguimos tocar rumo à Laje, com mestra e genoa em orça apertada.  Cerca de meia hora depois, um pouco mais a boreste, avistamos a "baleia", como é conhecida a Laje de Santos.  Corrigimos o rumo em alguns graus, mas a visão da grande pedra servia como boa referência.





Às 12h30 o almoço foi servido, em ponto: escondidinho de carne, feito pela Dona Lúcia, aquecido no forno. Um primor!



Chegamos na Laje às 14h00, alternando entre vela, motor e motor e velas. A média de velocidade foi de seis nós. Nada mau. As operadoras de mergulho tinham acabado de sair, de forma que ficamos por lá apenas nós e as aves marinhas. Foi um momento muito especial.








Ao colocarmos a proa para o norte magnético e retornarmos, a surpresa: ninguém mais via terra! O negócio era confiar na navegação e ir, no pano mesmo (ou quase isso, pois o vento realmente não ajudou). Chegamos na marina às 18h00, exatamente como planejado.





Obrigado ao Eduardo, pela carona e aos nossos alunos Giuliano, Erika e Douglas, pelas horas espetaculares que passamos juntos no mar.

E vamos no pano mesmo!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre ancoragens

Boas!

Como comentei em minha última postagem, saímos de Ubatuba para trazer o Jazz 4 em uma manhã da primeira semana de janeiro. Saímos cedo, logo após o sol nascer, no motor. Depois de cerca de uma hora de navegação, com as meninas ainda dormindo, abri a genoa e começamos a velejar, aproveitando o vento NE típico daquele horário.

Nossa primeira parada foi a praia do Jabaquara, já na Ilhabela. Eu tenho por hábito parar sempre o mais longe da praia possível, mas me mantendo abrigado. Vejo alguns colegas velejadores se gabando de que o veleiro deles os permite parar quase na praia. Eu, de minha parte, nunca vi muita vantagem nisso. Parar perto da praia significa que se entrar uma porranca, e elas sempre entram, seu veleiro estará mais perto de encalhar. Fica mais fácil desembarcar? Fica. Mas de bote com motor ou de SUP se chega também. Nesse dia, então, não foi diferente. Ainda mais porque o barco em que eu estava não era meu, o que exigia cuidados quadruplicados.

Fundeamos em oito metros. Sem guincho. A água,porém, estava com uma visibilidade rara. Assim que fundeamos a Alice gritou: "- Olha, dá para ver o fundo!". Dava mesmo. Víamos a sombra do barco na areia. Foi lindo.

Passamos o dia visitando praias da Ilhabela. Mas era verão e à tarde a conta do dia bonito sempre vem. Seguindo o conselho do Spinelli, segui para Guaecá. Fui um tanto desconfiado, confesso,pois ali não há abrigo, a não ser de uma lestada.Como não havia frente fria para entrar, topei.  "- Procure a faixa dos cinco metros, no meio da baia, e fundeie. Já fiz isso centenas de vezes.". Foi o que fiz.

Cerca de meia hora depois do fundeio, do alto da serra do mar - que naquele trecho está bem próxima à costa e é alta - surgiu uma nuvem negra, repleta de raios. A praia estava cheia. Cinco minutos depois, ficou deserta. O vento entrou com força, fazendo voar um ou outro guarda sol desavisado. Soltei 40 metros de cabo, entre corrente e amarra sintética. Tínhamos boa distância de terra e nenhum barco a nossa volta. Era o primeiro teste, que me daria confiança para o que viria no dia seguinte (mas isso eu ainda não sabia). O barco se comportou bem e não garrou (garrar significa que a âncora não está segurando o barco preso ao fundo) nem um metro. 

Ventinho em Guaecá.
O Spinelli sabe mesmo das coisas: o vento vinha de terra para o mar. Se a âncora falhasse, iríamos para o mar aberto e não para a praia. No mar o veleiro está em seu ambiente natural; já na areia...

Depois do vento veio a chuva. Depois da chuva, a noite, com tudo calmo. O excesso de cabo então,  deixou o barco muito "solto", dando o costado para as ondas. Diminuí a amarra na metade e voltou a ficar tudo ok. 

No dia seguinte veio o desafio: puxar a amarra sem acordar as meninas e sem destruir minhas costas. A âncora estava bem enterrada, em fundo de areia plano (a carta náutica traz essa indicação e ela é bem relevante para o tipo de âncora que iremos utilizar. No litoral do Santos/Rio pode-se dizer sem sustos que a Bruce atende bem todos os fundos).

O ser humano sabe usar ferramentas. Isso o distingue de muitos outros animais. Foi o que fiz: usei o barco para tirar a âncora. Com paciência e sentado, puxava o cabo da amarra em pequenas porções, dando motor à vante, devagar, de tempo em tempos*.  Quando ficava impossível puxar, amarrava o cabo no cunho, engatava levemente o motor a vante por alguns segundos e esperava o barco ir levantando a corrente do fundo e ir soltando a âncora. Em menos de dois minutos ficava leve de novo. Fiz isso umas quatro vezes.

Outra opção para quem não tem guincho é usar um cabo longo, com um gancho em uma das pontas, que vá de um ponto da corrente o mais perto da águia possível até um catraca. Então basta catracar esse cabo. O chato desse método é que ele não rende muito, pois a todo instante temos que ir lá levar o gancho de novo para um elo a frente da corrente. Melhor mesmo talvez seja um guincho!

Abrindo um parênteses: quando eu comprei o Malagô (40 pés e 13 toneladas) passamos a terceira noite a bordo (de um total de dez) na Ilha da Cotia, em Paraty. No dia seguinte tentamos puxar a âncora na mão. Não veio. Olhei para a Priscila e disse: amanhã a gente vai embora. Ficamos mais um dia. No segundo dia, logo cedo, tentamos. Não vinha de jeito nenhum, para meu desespero. Comecei a ter saudades do nosso barco anterior, o Cusco Baldoso, um Atoll 23. Nele era só puxar que vinha... No terceiro dia ficamos sem água e sem comida, com duas crianças a bordo. Foi ai que a Priscila teve a ideia de quando a corrente ficasse impossível de puxar, amarrar no cunho e eu dar a vante com o motor, devagar. Intuitivamente ela descobriu como desenterrar âncora! Como recompensa, até hoje - não temos guincho ainda - é ela quem levanta a âncora no Malagô.

Pois bem.

Seguimos no motor, o vento era zero, em direção às Ilhas. Passei por dentro da Ilha de Toque Toque, curtindo a paisagem. Quando vi a primeira barbatana, acordei todo mundo para a festa dos golfinhos! Foi bem legal. 

Passamos o dia nas Ilhas, curtindo a água cristalina e o céu azul. Só não foi perfeito porque havia umas quarenta lanchas por lá também, assim como alguns jets fazendo manobras pouco ortodoxas. Faz parte.



No meio da tarde a água doce acabou. As meninas abusaram nos banhos. O que fazer? O primeiro reflexo era seguir viagem. Mas... no meio da tarde ? E se viesse um temporal? Valia à pena? Combinamos de usar água mineral para o banho e que seria apenas um banho de água doce, no final do dia. Ficamos por ali. Por sorte eu havia comprado muito mais água mineral que o necessário.

Um pouco antes de escurecer olhei para a direção de Bertioga e vi o monstro se aproximando: uma Cb (Cumulus Nimbus) linda, enorme, ameaçadora. As lanchas se mandaram, a exceção de três. Um dos comandantes saiu orientado os demais a se afastarem da praia e ancorarem longes uns dos outros, pois se o vento entrasse como prometia, a coisa ficaria complicada. Isso me deu confiança neles, pois no fundeio, às vezes, o problema está nos outros. Vesti minha "roupa de festa" e tracei a estratégia, feliz de não ter saído antes por conta da falta de água.

Um pouco antes da Cb surgir no horizonte.

As Ilhas ficam em frente à Barra do Sahy, em São Sebastião. A ancoragem ali não é das melhores: o fundo é muito irregular, ondulado. Isso é péssimo para fixar a âncora, pois ela tende a se desenterrar. Se puder fuja de fundos irregulares. Naquele dia, porém, eu não podia.

Soltei todo o cabo que havia a bordo. Um pouco antes do final do cabo e por fora da proa, amarrei uma defensa no cabo da âncora. Assim, se a âncora garrasse, eu poderia soltar o cabo e sair com o barco no motor ou na genoa antes dele ir dar nas pedras. Recolher na mão aquele cabo todo  sob ventos uivantes levaria mais tempo do que eu teria. Com a defensa no cabo ficaria fácil, ou menos difícil, retornar lá e resgatar a amarra depois que as coisas se acalmassem.

Liguei o alarme de garra do celular e do plotter que há a bordo do Jazz 4. Além disso, no plotter, reduzi o zoom para o mínimo possível. Assim conseguia ver o padrão do fundeio, identificando uma possível garra do ferro. Além disso fiz marcações visuais com terra. Por sorte essa minha mania de nos colocar mais abertos faria o veleiro, caso garrasse, ir para o canal entre As Ilhas e o continente e não para as pedras. Pelo menos era o que parecia, mas essa certeza eu esperava não ter.

O padrão do fundeio. Se passássemos das linhas grossas da direita, era porque estávamos garrando. Se nos mantivéssemos à esquerda (na tela do plotter) e para cima, estava tudo bem.
A nuvem foi chegando. O mar a frente fervendo. As meninas lá dentro, brincando como se não tivesse nada lá fora, sem entender porque eu parecia tão tenso. As lanchas ao lado ligaram as luzes de navegação e os motores. O vento vindo. A noite será longa, pensei. 

Um pouco antes de entrar no canal das Ilhas, a nuvem abriu para o mar. Pegamos vento e chuva., mas de raspão e nada como parecia que seria. Se entrasse aquilo tudo que a nuvem negra prometia, porém, estaríamos preparados. E estar preparado é tudo! Se antecipar ao pior é sempre melhor do que a negligência. Se eu tivesse soltado dez metros de cabo e ido dormir, já que estávamos cansados, o desfecho poderia ter sido outro, como já aconteceu antes por ali, mais de uma vez.

A noite foi mesmo longa. A coisa só acalmou lá pelas quatro da manhã. Dormi quase nada.

O veleiro não garrou e no dia seguinte chegamos ao Clube inteiros e sem nem um arranhão no barco. Como deve ser. Claro que recolher todo aquele cabo foi um parto, à fórceps. Mas fui aos poucos e não tive dor na coluna.

Uma boa alternativa para essa situação é ancorar à galga, como fez nossa aluna Ana Paula lá na Flórida, poucos dias depois, quando entrou o tornado. Mas isso é assunto para outro dia.

E vamos no pano mesmo!

* Cuidado! Dê motor apenas o suficiente para que o barco tenha um pequeno seguimento à vante. Se você exagerar nessa manobra há o risco de o veleiro avançar sobre a amarrar que está na água e o cabo enroscar no hélice. Essa manobra exige, sobretudo, paciência.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Estou vivo...

Boas!

Sim, estou vivo e bem. Algumas pessoas têm cobrado o fato de eu não escrito mais no blog. E elas têm razão, ano passado não estive por aqui com a frequência de antes e em dezembro e janeiro fui praticamente apenas silêncio.

Mas não que não tenha acontecido muita coisa, pelo contrário. Mas assim, pelo menos, as pessoas ouvem histórias novas quando vem velejar com a gente, já que muitas vezes eu começava a contar e elas já sabiam do que havia acontecido, pois haviam lido aqui no blog.

Participamos da Regata da Marinha em dezembro, com o Malagô. Pela primeira vez ganhamos, com ele, uma colocação verdadeira: segundo lugar entre seis barcos. Foi um dia atípico, onde o vento ia e voltava. Como o Velho Mala é muito mais pesado que os outros barcos, pesando treze toneladas, sua inércia é maior. Nos períodos de calmaria ele seguia, ainda que a um nó, enquanto o restante da flotilha ficava para trás. Foi bem legal tirar um sarro dos amigos nesse dia de festa!

Nesse mesmo dia, retornando para a Marina no motor, a correia dentada do control quebrou. O motor parou na hora e eu sabia que o prejuízo seria grande.  Mas era dezembro, era um dia de festa e eu não ia me preocupar com isso. Voltamos rebocados, coloquei o barco na vaga e me despedi dele sem muita cerimônia. Tem horas que, devo confessar, ele enche o saco e dá vontade de deixar de ser escravo e fazer outras coisas. Foi o que eu fiz.

Desde que a Alice nasceu, em 2010, esse foi o primeiro natal e ano novo que passamos em Santos. Foi legal, mas eu preferia estar longe do Malagô. Aproveitei para tirar o motor e levar para Ubatuba, de carro, ver o que faria. A vontade de comprar um Yanmar novo é enorme... mas ele custa uns 60 mil reais e nesse momento temos outras prioridades. Além disso em janeiro eu e as meninas iríamos para os EUA, como de fato fomos e eu sabia que a fatura do cartão viria recheada de zeros. E de fato, veio.

Nesse meio tempo fiz um acerto com o Volnys, dono do Jazz 4 (um Velamar 31) e durante alguns meses irei usá-lo para dar aulas aqui em Santos, em substituição ao Malagô - que está sem motor até segunda ordem. O barco está no CIR.

Na ABVC - Associação Brasileira dos Velejadores de Cruzeiro -,minha intenção era me desligar após o fim do meu mandato de VP Santos, que ocupei entre 2015 e 2016 indicado pelo Volnys. Mas o Paulo Fax, novo Presidente, sei lá como, acabou me convencendo a continuar e assim  virei o Diretor de Informática daquela entidade. O novo VP Santos é o Max Gorissen, que já se mostra muito entusiasmado e ativo na função. Bons ventos!

Na primeira semana de janeiro as meninas toparam vir comigo de Ubatuba até Santos no Jazz 4. A condição era que eu fosse resgatar o carro sozinho... Foi então que fizemos umas das mais belas travessias de minha vida. A uma pois o trajeto é mesmo lindo e o fizemos em quatro dias, bem próximos da costa, parando em todas as praias que pudemos. A duas pois pela primeira vez todas as pessoas mais importantes da minha vida estavam a bordo. O relógio já não corria tão desesperado. O barco, mesmo não sendo nosso, era nossa casa.

Pegamos um mar de transparência rara. As meninas nadaram com tartarugas e foram acordadas por golfinhos. Enfrentamos, também, dois temporais de fim de tarde bastante severos (um em Guaecá e outro nas Ilhas), nos quais elas se comportaram bem melhor do que eu. Falarei mais sobre eles em um outro post, que tratará de ancoragens em condições adversas.

Depois fomos para os EUA, onde além de levar as meninas para ver o Mickey aproveitei para conhecer mais profundamente a estrutura de ensino da American Sailing Association - ASA, visitando e estudando em escolas de vela oceânica da Florida. A mala das maninas voltou cheias de muamba. A minha, de livros e ideias.

Esse ano iremos nos dedicar a criar meios para que nossos alunos continuem velejando mesmos sem ter, ainda, seu próprio barco. Iremos, além, começar a difundir o turismo de aventura à vela. Mas essa é outra história.

E voltei também com uma saudade enorme do Malagô... e não vejo a hora de fazê-lo navegar plenamente uma vez mais! Paixão é paixão, não tem jeito. E ele não está à venda.

E vamos no pano mesmo!